Hard Voice
Hard Disk. Hard Voice. Sinto-me maquina apertando parafusos mentais, corrigindo
idéias. Dou seqüência à linha de montagem de conceitos padronizados. Copiando os
velhos operários, vejo os carros pretos saindo todos iguais todos sem tesão. Tento
comprar o meu, mas não tenho dinheiro. Sinto-me Hard Disk, apertando cérebros
incontidos. Hard Voice proliferando a palavra do Senhor Capital. Voz sem tesão,
totalmente artificial.
Já não posso me curar de mim
Um traço de tristeza que eu mesma tatuei
Pensamentos leves a ponto de existir na presença dos outros
Não é simples verborragia
É onda reverberada
Sensação que vai, bate na borda e retorna, menor e invertida
Tolices de uma alma oferecida
O círculo do inútil estará sempre em meu pulso
Sei que te feri
Mas continuo apostando mais na minha dor
Nunca temi afogar-me
Você, sempre…
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Meu poema favorito do Carlos Drummond de Andrade

Desejo é asa que voa para o infinito
Virtuosidade é atitude resignada
Vida é volúpia até o último minuto
Conquista é um risco perigoso
Sofrimento é uma intimidade que se supõe
quase impossível
Esperança é instrumento de auto- martírio
Desamor é a pior das ingratidões
Solidão é faca enferrujada que te rasga aos poucos
Amor é a eutanásia da alma
Silêncio é a fivela pontuda dessa correia que me prende de
todos os lados
Poema é pensamento leve que existe na presença de outros.

Assim de repente, sem anúncio
você invadiu minha vida
mais atraente que a rosa mais rosa
mais tranquila que uma brisa no fim da tarde
mais tenra que a mais tenra idade
mais linda e adorável que a luz do luar
mais viva que verso em prosa
mais própria do que eu podia pensar
Tão pouco vivemos juntas
e já sinto que sempre esteve comigo
estavas comigo porque reflete meus desejos
estavas comigo em pensamento sem mesmo saber
Flor muito mais que delicada
não te aborreças com sussurros que percorrem distâncias enormes
não te aborreças com o mal que transcende a raiva
os sábios e ardilosos recursos de enganar.
isso é tudo infinitamente humano.
Descansa em mim tuas ansiedades e medos
recortaremos juntas alguns afetos e desafetos que nos forem enviados
exibindo com orgulho nossas conquistas e bondade
com o melhor e mais humano calor
que sobe dos pés até o breve contato com o coração
calor humano, fatalmente humano
com uma força que não se sabe
chamar-se, apenas, amor.
Se achas que a sorte do outro
é mais importante
É porque ainda não prestou atenção à sua dor individual
Se colocas de lado suas preocupações
indagando se a gratificação valerá mais do que um sorriso
É porque esperas o triunfo geral do amor
e não vê que serás apenas vítima de um desastre
Se tens que mudar suas categorias para enfim sentir-se aceita
É porque desconhece o sentido do efêmero
e acredita que ainda é possivel criar algo
tendo apenas como força motriz o desejo.
Se acreditas que o sentimento é eterno
é porque é eterno tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha itensidade que se petrifica e nenhuma força
mesmo que tentando se fazer de desinteressada poderá destruí-lo.
Se permite que te provoquem e mesmo assim consegue manter-se plácida
É porque espera que cada um se realize e se consuma
com seu poder de palavra e também seu poder de silêncio.
Mas se, contudo, não se arrepende de fechar teus ouvidos
aos insultos ou até mesmo aos apelos de seu coração,
que já desesperançado atenta-te para os perigos
É porque algo extraordinário aconteceu
Você sentiu, mesmo que por pouco tempo, o puro
orvalho da alma. E pode parecer estranho…mas foi pela primeira vez.
E mesmo que no fim chamem-na de fraca, aflita e submissa…
Nada mais importará. E quando as ruas mudarem de rumo,
você se esguerá digna de imensa admiração.
E muitos entenderão o recado.

Eu,
às vezes …
Você,
quem sabe …
Nós,
mera imaginação.
Um corpo
entra em meus sonhos.
Um corpo,
Você.
Às vezes,
você.
Quem sabe,
você?
Eu ?
Nunca!!
Perco os sentidos,
enrolo e
incinero os
motivos.
Às vezes
a fumaça purifica
o ambiente.
Eu,
às vezes …
Nós,
quem sabe …
Você,
mera imaginação,
pura fumaça,
que se dilui
no monócito de
carbono.
Perco os motivos.
Tanta indecisão acabou com a zona de desejo.
Fiquei ali, contemplando minha própria vida sem amor ou curiosidade.
No entanto algumas experiências me despertam:
Desespero beirando à melancolia, pequenas solidões, amores repelidos.
Tenho tido muito medo de viver… Vírginia Woolf já dizia
que sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse.
Ah mas se eu pudesse passar por tudo e sofrer arranhões apenas no corpo…
Como penso nisso!
Pensamento que há muito me atormenta, que conheci ainda criança e só.
Foi quando troquei uma pequena adoração por suspeitas.
Escrever me alivia, conserva o disfarce.
E sei que algumas [poucas] flores me inspiram, me aguçam o tom, e me possuem,
mesmo sem saberem…
Desdobro-me às vezes, e ainda assim sou torta.
Permito, por vaidade, que alguns me vejam disforme e pura.
Quem sabe alguém, perspicazmente, ou por um lance de sorte consiga enxergar
a beleza oculta nessa minha alteridade.
E fico inerte, na zona do desejo…
Olhando até onde alcança minha ironia.
Esperando que você…
Sentada no canto da mesa alimento-me
de razões tortas, vaidade torta, felicidade torta.
Por que você não vem para matar a minha festa?
Se tanto assim queria…
Eu sei como entre bocejos você me olha…
Sábia e ardilosa, desprendida.
Por que vinho?
O vinho era só um pretexto, nem precisávamos
beber se tudo ao nosso redor já girava.
E girava com tanto volume
recobria-me de poesia, ou seria invenção?
Uma sombra sobre formas constituídas de matéria torta.
Todos me olham, tenho unhas sujas de sangue
e o vestido rasgado.
Mesmo assim ali permaneço, te olhando nos olhos.
E isso tudo é tão terrivelmente adulto.
Estou a esperar que você desça de sua nobreza
e com seu maxilar inferior se aproxime
renda-se ao rubor que incendeia a mim e a ti
e diga da forma mais devastadora com
“traços cômicos”, que apesar da sua natureza
ambígua e reticente, você não sente.
Não sente nada.
Hoje á tarde eu escrevi uma história.
Recortei fatos, misturei figuras, reconstruí a indefinição que sempre me atormentou,
reconstruí a frase incompleta. Pode até ser banal mas, somente cinco palavras
apareciam e o vazio emocional apagava a suposta desinência.
Histórias são feitas de emoções …
Estas palavras se repetiam, se repetiam e a frase não era
completada. O despreparo e a alienação tomaram conta da caneta
tinteiro, manchando uma belíssima idéia que permanecia nas entrelinhas. A
esperança por mais que imortal, já demonstrava impaciência deixando-me sozinha
entre um substantivo e uma vírgula.
Histórias são feitas de emoções …
Hoje à tarde eu escrevi uma história , se é que dois
parágrafos vazios podem ser chamados de história. Recortei fatos com uma tesoura
cega, misturei figuras indefinidas, reconstruí fotos rasgadas num momento de
raiva. Pode até ser banal mas, somente cinco doses me separavam de um
coma alcóolico e o vazio emocional me angustiava.
Hoje à tarde eu escrevi uma história.
Performática ou excêntrica, não sei. Tenho dúvidas pois, rótulos nunca me agradaram. Por este
motivo não rotulo meus sentimentos,apenas sinto-os e me recolho nesta ignorância.
Histórias são feitas de emoções.
Vidas são feitas de histórias.
Emoções são momentos.
Momentos são instantes mais demorados.
Histórias são feitas de emoções
e infelizmente eu sou insensível.
Infelizmente.